Leituras poéticas – Capítulo 21
Parte
de mim
Por Majda
Hamad Pereira
Parte de mim é terra
Outra parte é ar
Minha mente vagueia
Em absortos pensamentos
E onde quer que esteja
Estou, nem seja por segundos,
Em uma ausência presente
Entre o tempo e o vento
Sem firmeza de lugar.
Tempo, Vento e a Poética
da Ausência
Por Hiran de Melo
A
leitura do poema Parte de mim pode ser conduzida como uma travessia
entre estados de ser — uma poética da instabilidade, da leveza e da ausência
que se faz presença. O texto não se organiza como afirmação identitária, mas
como fluxo, como tentativa de nomear o que escapa. A voz poética não se define:
ela se dispersa entre elementos, entre tempos, entre espaços.
A
abertura — “Parte de mim é terra / Outra parte é ar” — já estabelece uma tensão
entre o peso e a leveza, entre o enraizamento e o voo. A terra é matéria, é
corpo, é limite. O ar é pensamento, é liberdade, é dissolução. Essa oposição
não busca síntese, mas coexistência: o eu lírico é feito de contrários que não
se anulam.
A
mente que “vagueia / Em absortos pensamentos” não é apenas distraída — ela é
errante, nômade, entregue ao devaneio. O pensamento aqui não é instrumento de
controle, mas espaço de deriva. E essa deriva se intensifica no verso “Em uma
ausência presente”, onde o paradoxo se torna chave interpretativa: estar e não
estar, ocupar e esvaziar, ser e não ser.
O
poema se move “Entre o tempo e o vento”, dois elementos que não se deixam
fixar. O tempo é duração, o vento é movimento. Ambos são invisíveis, ambos
atravessam. O eu lírico se coloca nesse entre — não como quem busca um lugar,
mas como quem aceita a impermanência. “Sem firmeza de lugar” não é
desorientação, é liberdade de não pertencer.
Essa
leitura nos convida a perceber que Parte de mim é um poema sobre o
descentramento. A voz poética não reivindica identidade, mas acolhe a
multiplicidade. O poema é feito de sopros, de pausas, de espaços abertos. Ele
não quer explicar — quer sugerir. E nessa sugestão, revela
que ser é também não saber onde se está, é também aceitar a fluidez como forma
de existência.
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