Leituras poéticas – Capítulo 20
Perfume
Por Majda
Hamad Pereira
O
perfume
De
alguns
É
húmus
Que
Fertiliza
Toda
a terra
É
cheiro de pele
De
ervas
Alquimista
Enlouquece
o coração da gente.
A Alquimia do Invisível
Por Hiran de Melo
A
leitura do poema Perfume pode ser conduzida como uma experiência
sensorial que transcende o olfato — o perfume aqui não é apenas aroma, mas
presença, memória, alquimia. O texto se constrói como uma espiral de imagens
que evocam fertilidade, corpo, natureza e encantamento. Cada verso é uma nota
olfativa que compõe uma fragrância poética.
O
início, com “O perfume / De alguns / É húmus”, já desloca o perfume do campo da
cosmética para o da terra. O húmus, matéria orgânica que nutre, sugere que há
perfumes que não apenas agradam, mas transformam — são essência vital, capazes
de fertilizar o mundo. O perfume é, portanto, potência criadora.
A
sequência “É cheiro de pele / De ervas” aproxima o perfume do corpo e da
natureza. A pele é território íntimo, e as ervas, elementos da terra. Essa
fusão entre humano e vegetal revela uma dimensão ancestral do perfume: ele é
vínculo, é linguagem silenciosa entre o ser e o mundo.
A
palavra “Alquimista” funciona como um pivô simbólico. O perfume é apresentado
como arte secreta, como magia que opera transformações invisíveis. E o efeito
dessa alquimia é direto: “Enlouquece o coração da gente.” O verbo “enlouquecer”
não indica descontrole, mas intensidade — o perfume toca o coração, altera o
ritmo, provoca vertigem.
O
poema, com sua estrutura breve e vertical, lembra a ascensão de um aroma:
começa na terra, passa pela pele, chega ao coração. Essa trajetória é também
espiritual — o perfume é caminho, é revelação. A ausência de pontuação reforça
o fluxo contínuo, como se o poema fosse ele mesmo uma fragrância que se
espalha.
Essa
leitura nos convida a perceber que Perfume não é apenas uma celebração
dos aromas, mas uma meditação sobre o poder invisível das presenças sutis. O perfume é metáfora daquilo que
nos toca sem ser visto, daquilo que transforma sem alarde. E a poesia, como o perfume, é arte de
sugerir — nunca de impor.
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