Leituras poéticas – Capítulo 19

Perfumes do Jardim

Por Majda Hamad Pereira

 

Há tantos que correm

Há poucos que ficam

 

Há poucos coragens

Há tantos covardes

 

Há tantos gritos

Há poucas falas

 

Há pouca comida

Há tanta terra

 

Há tantos inimigos

Há poucos amigos...

 

Que o bem prevaleça e aos homens acolha-os

Para que vivam distantes das perdas.

 

O Ritmo da Ausência

Por Hiran de Melo

A leitura do poema pode ser conduzida por uma sensibilidade que privilegia o ritmo como revelação — não apenas métrica, mas pulsação existencial. A repetição da palavra “Há” funciona como um mantra que desvela as fissuras do mundo: cada verso é uma batida que marca a ausência, o excesso, o desequilíbrio. O poema não se constrói como denúncia explícita, mas como constatação poética da desordem.

A alternância entre “tantos” e “poucos” revela uma geometria moral do mundo: há abundância onde deveria haver escassez (gritos, inimigos, terra) e escassez onde se espera abundância (coragem, fala, comida, amigos). Essa inversão não é apenas crítica social, mas também um gesto de estranhamento — o eu lírico observa o mundo com olhos que não se acostumam à injustiça.

O verso “Há poucos coragens” é especialmente revelador. A escolha do plural incomum — “coragens” — sugere que a coragem não é uma entidade única, mas múltipla: há coragem para falar, para ficar, para amar, para resistir. E todas elas parecem rarear. O poema, assim, não lamenta apenas a ausência de bravura, mas a fragmentação das virtudes.

A imagem da terra abundante diante da fome é uma das mais potentes. Não há explicação, apenas o contraste. O silêncio entre os versos é o espaço onde o leitor é convocado a pensar: por que há tanta terra e tão pouca comida? O poema não responde — ele apenas mostra, como quem abre uma janela para o absurdo.

O encerramento, com o desejo de que “o bem prevaleça”, não é uma solução, mas uma esperança. A poesia aqui se aproxima da prece, do gesto de quem, diante do caos, ainda acredita na possibilidade de acolhimento. O verbo “acolher” é chave: ele aponta para uma ética do cuidado, para uma utopia de proximidade.

Essa leitura nos convida a perceber que o poema não é apenas um inventário de contrastes, mas uma coreografia do mundo em desequilíbrio. Cada verso é um passo que revela a dança tensa entre o que é e o que poderia ser. E o poeta, ao repetir “Há”, nos lembra que a poesia pode ser um modo de ver — e de resistir.

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