Leituras poéticas – Capítulo 18
Perfumes
do Jardim
O
Gosto
Por Majda
Hamad Pereira
O
gosto do passado
Foi
amargo
Infelicidade,
não sei
Edificante,
talvez
O
presente
Não
elaboro
Também
não ignoro
Deixo
acontecer
E o
futuro, não sei
Simplesmente
vivo...
Simplesmente
vivo...
Vivo...simplesmente.
A Poética do Tempo
Por Hiran de Melo
A
leitura de O Gosto pode ser aprofundada em uma chave interpretativa que
privilegia o silêncio, a pausa e o ritmo interno do poema como elementos
centrais da experiência estética. O texto não se constrói apenas pelo que é
dito, mas também pelo que é suspenso, pelo espaço entre as palavras. Essa
economia verbal abre um campo de ressonância, em que o leitor é convidado a
preencher os intervalos com sua própria memória e sensibilidade.
O
passado, marcado pelo “gosto amargo”, não é apenas lembrança de dor, mas também
um território de indeterminação. O “não sei” e o “talvez” não funcionam como
hesitação, mas como abertura: o passado não se fixa em uma única interpretação,
ele se mantém vivo na oscilação entre ferida e aprendizado. O presente, por sua
vez, é vivido como fluxo, sem elaboração, sem resistência. A atitude de “deixar
acontecer” sugere uma entrega ao tempo, uma aceitação da impermanência que
dissolve a necessidade de controle.
Já
o futuro, envolto em incerteza, é reduzido à repetição insistente de
“simplesmente vivo”. Essa repetição não é redundância, mas um gesto de
afirmação: viver é o ato fundamental, e nele se concentra toda a potência da
existência. O poema, assim, não busca respostas, mas propõe uma ética da
simplicidade — viver sem aprisionar-se ao peso do passado ou à ansiedade do
futuro.
A
força do texto está justamente em sua contenção. Ao recusar excessos, ele nos
lembra que a poesia pode ser um exercício de despojamento, uma forma de dizer
menos para que se escute mais. O “gosto” que atravessa o poema não é apenas
sabor, mas metáfora da
experiência temporal: amarga, incerta, mas sempre presente no ato de viver.
Esse
tipo de leitura nos convida a perceber que o poema não é apenas sobre o tempo,
mas sobre a maneira como nos relacionamos com ele: não como cronologia, mas
como experiência sensível, marcada pela intensidade do instante.
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