Leituras poéticas – Capítulo 17
Perfumes do Jardim
Sedução
Por Majda Hamad Pereira
Sangue,
água
Ferve,
acalma
Parte
da carne
Unificante
Úmida
É
alma
Esculpindo
A
forma
Redesenhando
A
matéria
Passeios,
sedução
Sentimentos,
pulsação.
Entre Carne e Alma: A Escultura do Desejo
Por Hiran de Melo
O
poema “Sedução”, de Majda Hamad Pereira, é uma escultura verbal que se
molda entre pulsação e silêncio, entre matéria e espírito. Sua brevidade não é
limitação, mas intensidade: cada palavra é um núcleo de sentido, cada verso,
uma vibração que reverbera no corpo e na alma.
A
estrutura fragmentada e os versos curtos criam uma cadência que se assemelha ao
próprio ato de seduzir — feito de aproximações sutis, pausas carregadas de
tensão, e movimentos que redesenham o espaço entre dois seres. A linguagem é
sensorial, quase tátil, e nos convida a sentir antes de compreender. “Sangue,
água / Ferve, acalma” — aqui, o poema já se abre como um campo de forças
opostas, onde o desejo é tanto combustão quanto serenidade.
A
sedução, nesse texto, não é apenas carnal: ela é alquímica. “Parte da carne /
Unificante” revela que o corpo é ponto de partida, mas não de chegada. A
entrega física é ponte para uma união mais profunda, que se insinua no verso “É
alma”. A umidade, o toque, o calor — tudo isso é matéria que se transfigura em
espírito, como se o desejo fosse uma escultura que revela o invisível.
Há
uma dimensão transformadora que atravessa o poema: “Esculpindo / A forma /
Redesenhando / A matéria”. A sedução é força criadora, capaz de alterar não
apenas o corpo, mas o ser. Ela é arte e alquimia, passeio e pulsação. O poema
não descreve a sedução — ele a encena, a encarna, a faz vibrar em cada sílaba.
Assim, “Sedução” se inscreve como uma poética
do desejo que não se contenta com o superficial. Ele mergulha no abismo entre
carne e alma, entre impulso e contemplação, e emerge como um canto breve, mas profundo, sobre o poder
que temos de tocar e ser tocados — não apenas pela pele, mas pela presença.
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