Leituras poéticas – Capítulo 08
Perfumes do Jardim
Prova
Por Majda Hamad Pereira
Terra,
mar, ócio, poder
Quem
sou eu sem você?
O
ócio da minha vida
A
terra do meu prazer.
O
instante sem você
Seria
só e somente
O
poder da saudade
Que
consiste em fazer de ti
O
meu bem querer.
A Saudade como Força que Revela o Amor
Por Hiran de Melo
No
poema “Prova” a poeta constrói uma paisagem emocional marcada pela
ausência e pela transformação da saudade em afirmação amorosa. A voz poética
inicia com uma enumeração aparentemente desconexa — “Terra, mar, ócio,
poder” — que, ao serem reunidas, revelam aspectos da existência que ganham
sentido apenas na presença do outro. A pergunta que se segue, “Quem sou eu
sem você?”, não é apenas retórica: ela expressa uma inquietação profunda
sobre identidade e pertencimento.
A
estrofe seguinte — “O ócio da minha vida / A terra do meu prazer” —
mostra como o amado é fonte de vitalidade e sentido. O “ócio” sem ele é vazio,
enquanto a “terra” com ele é prazer. Há aqui um jogo de opostos que revela a
dualidade do amor: ausência e presença, vazio e plenitude, dor e prazer.
Na
segunda parte, o poema mergulha no instante da ausência: “O instante sem
você / Seria só e somente / O poder da saudade”. A saudade é apresentada
como uma força ativa, quase soberana, capaz de transformar o vazio em desejo e
o desejo em amor. “Que consiste em fazer de ti / O meu bem querer” — é
nesse movimento que a ausência se converte em prova de afeto. A dor da falta
não paralisa; ela revela, intensifica, confirma.
Essa
leitura sugere que o amor não se define apenas pela presença, mas também pela
ausência sentida. A saudade torna-se uma ponte entre o eu e o outro, uma
energia que não apenas lamenta, mas reafirma. O poema nos convida a perceber
que o amor verdadeiro não se dissolve na distância — ele se revela nela.
Assim, “Prova” é
uma meditação sobre a identidade que se constrói no encontro e se reafirma na
saudade. A linguagem simples e simbólica, o jogo entre opostos e a força da
pergunta existencial criam uma atmosfera de profundidade emocional e
espiritual. O poema nos lembra que amar é também saber transformar a ausência em presença interior,
e que a saudade, longe de ser apenas dor, pode ser a mais bela confirmação do
querer.
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