Leituras poéticas – Capítulo 60

 


O Húmus do jardim

Qualquer Coisa

 

Por Majda Hamad Pereira

 

Sou o que penso

O que como

Sou o momento

Qualquer coisa, em qualquer canto.

 

Sou a realidade dos fatos

Estatística

Sou parte dos medos

O fim do retraço.

 

Sou o silêncio da noite

O sabor do vinho

Sou mistura de cores

Pássaro no ninho.

 

Sou galeria da vida

Sou a lembrança dos contos

O entardecer na escadaria

Sou orquídeas nos campos.

 

 

Reflexão – Uma leitura possível do poema:

 

Qualquer Coisa

 

"Qualquer Coisa", de Majda Hamad Pereira, propõe uma investigação poética da identidade, da existência e da realidade, convidando o leitor a uma imersão subjetiva e reflexiva. Através de versos concisos e carregados de imagens, a autora tece uma rica tapeçaria sensorial que transcende os limites da experiência individual, buscando uma universalidade da condição humana.

 

Sou o que penso

O que como

Sou o momento

Qualquer coisa, em qualquer canto.

 

A estrofe inicial sugere uma definição fluida e ambígua do "eu" poético. Há uma mistura entre elementos concretos, como "o que como", e abstratos, como "o que penso", o que reflete a complexidade da experiência humana. A expressão "o momento" indica uma existência efêmera, que está em constante transformação. A expressão "qualquer coisa" reforça a ideia de um sujeito que é ao mesmo tempo indefinido e onipresente, sempre presente, mas sem forma fixa.

 

Sou a realidade dos fatos

Estatística

Sou parte dos medos

O fim do retraço.

 

Nesta estrofe, o poema explora a dualidade da existência. O "eu" poético é, ao mesmo tempo, a objetividade representada pelos "fatos" e pela "estatística" e a subjetividade dos "medos". A expressão "o fim do retraço" pode simbolizar tanto a superação de limitações quanto o encerramento de um ciclo, sugerindo uma transição ou transformação.

 

Sou o silêncio da noite

O sabor do vinho

Sou mistura de cores

Pássaro no ninho.

 

Esta estrofe evoca sensações e imagens vívidas. O "silêncio da noite" e o "sabor do vinho" apelam aos sentidos, trazendo à tona experiências sensoriais intensas. Já a "mistura de cores" e o "pássaro no ninho" pintam um quadro de beleza e aconchego, sugerindo uma atmosfera de tranquilidade e harmonia.

 

Sou galeria da vida

Sou a lembrança dos contos

O entardecer na escadaria

Sou orquídeas nos campos.

 

A estrofe final expande a dimensão do "eu" poético, transformando-o em uma "galeria da vida", um espaço que guarda memórias e experiências. As imagens do "entardecer na escadaria" e das "orquídeas nos campos" celebram a beleza tanto da natureza quanto dos momentos simples do cotidiano. O poema se torna uma celebração da vida, mostrando como o "eu" poético está presente em todos os lugares e situações, refletindo a totalidade da existência.

 

Leituras...

 

Constituição da identidade

 

A afirmação "Sou o que penso" evidencia a primazia da subjetividade na construção identitária proposta pela poetisa. No entanto, a auto definição como "Estatística" introduz uma dimensão objetiva, situando o sujeito lírico no âmbito de uma coletividade e revelando a tensão dialética entre o individual e o social na constituição da identidade.

 

Sou o momento

 

A expressão "Sou o momento" instaura uma temporalidade presentificada, convidando o leitor a uma imersão no fluxo contínuo da experiência. Em contraponto, a afirmação "Qualquer coisa, em qualquer canto" desloca o sujeito lírico para um espaço indeterminado, sugerindo uma universalidade atemporal e espacial da condição humana.

 

Construção da Realidade Poética

 

Através do emprego de metáforas e imagens vívidas, a autora desconstrói a noção de uma realidade objetiva e estática, propondo uma visão poética da existência como um construto cultural e subjetivo. A realidade em "Qualquer Coisa" é apresentada como um mosaico de percepções e experiências individuais, desafiando a ideia de um mundo exterior imutável.

 

A interconexão entre o indivíduo e o cosmos

 

A imagem das "orquídeas nos campos" funciona como uma metáfora que conota tanto a beleza intrínseca da natureza quanto a fragilidade da existência humana. Essa personificação da natureza confere ao poema uma dimensão poética que transcende o literal, convidando o leitor a uma reflexão sobre a interconexão entre o indivíduo e o cosmos.

 

Por fim

 

"Qualquer Coisa" constitui uma importante contribuição para a poesia contemporânea ao explorar de forma original e profunda temas como identidade, existência e realidade. Através de uma linguagem poética rica e inovadora, a poetisa convida o leitor a uma reflexão sobre a condição humana, ampliando os limites da experiência estética e desafiando as representações tradicionais da realidade.

 

Poeta Hiran de Melo


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