Leituras poéticas – Capítulo 58
O Húmus do jardim
Louco desconhecido
Por Majda
Hamad Pereira
O poeta vive
Da caça as palavras
Da simetria dos versos
Eu, como não sou poeta
Faço versos de enxerido
Não tenho nome conhecido
Nem poema preferido
Escrevo o que vem na telha
Em cima desta cama velha
Não modifico a minha escrita
Nem faço qualquer sacrifício
Apenas deitado fico
Com esta cara de bicho
Vivendo todos os dias
Como um louco desconhecido.
Reflexão – Uma leitura possível do poema:
Louco
desconhecido
O poema lírico
'Louco Desconhecido', de Majda Hamad Pereira, apresenta uma voz poética que
subverte os cânones tradicionais da lírica. A autora cria uma persona poética
que desafia as convenções literárias e as expectativas do leitor.
A Distância entre o Poeta e a Autora
O poeta idealizado,
para a autora, é um artesão da linguagem, um indivíduo que busca e seleciona
cuidadosamente as palavras para moldar seus versos. Essa figura contrasta com a
auto percepção da escritora como uma amadora. Ao se autodenominar 'enxerida', a
autora revela uma busca por autenticidade, valorizando a espontaneidade da
criação poética em detrimento de uma escrita mais elaborada. Essa postura
aproxima-a de correntes literárias que defendem a expressão individual e a
valorização do eu lírico.
Enquanto o poeta idealizado é visto como um mestre
da forma e da técnica, a autora se coloca como uma observadora atenta da
realidade, que transcreve suas impressões de maneira direta e sincera. Essa
distância entre a figura do poeta e a da autora reflete uma tensão presente em
diversas manifestações artísticas, que opõem a tradição e a inovação, a arte e
a vida.
A Escrita como Ato Libertador
A autora celebra a
espontaneidade da escrita, valorizando a criação poética que surge de forma
intuitiva e despreocupada. A imagem da 'cama velha' e da escrita que 'vem na
telha' evoca um ambiente íntimo e propício à livre expressão, onde as ideias
fluem sem a interferência de preocupações estéticas.
Além disso, a autora demonstra uma clara recusa à
ideia de uma escrita elaborada e perfeccionista. Ao afirmar 'Não modifico a
minha escrita', ela evidencia um desejo de preservar a autenticidade e a
espontaneidade do ato criativo. Essa postura aproxima-a de correntes literárias
que valorizam a expressão individual e a linguagem coloquial.
Temas
A identidade emerge
como um dos eixos centrais da poética de Majda Hamad Pereira. A autora, ao
questionar seu lugar no mundo literário e sua própria definição de poeta,
revela uma busca constante por autoconhecimento.
A figura do 'louco desconhecido' funciona como uma
metáfora para a marginalização e a alteridade. Ao se identificar com essa
figura, a autora subverte os papéis sociais e literários, posicionando-se à
margem do estabelecido. Essa estratégia permite-lhe explorar as zonas de sombra
da subjetividade e questionar as normas sociais.
Leituras...
Uma leitura autobiográfica do poema sugere que a autora projeta em sua persona
poética aspectos de sua própria experiência como escritora. A busca pela
identidade e a relação ambivalente com a poesia podem refletir questões pessoais
e vivências da autora.
A perspectiva existencialista permite uma leitura
mais profunda do poema, que pode ser interpretado como uma expressão da
angústia existencial e da busca por sentido em um mundo aparentemente absurdo.
A figura do 'louco desconhecido' simboliza a condição humana de isolamento e
alienação.
Por fim
O poema 'Louco
Desconhecido' convida o leitor a uma reflexão sobre a natureza da poesia e da
identidade. A obra, marcada pela busca por autenticidade e pela subversão dos
cânones literários, convida a uma leitura atenta e individualizada, permitindo
que cada leitor encontre ressonâncias com sua própria experiência e construa
suas próprias interpretações.
Poeta Hiran de Melo
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