Leituras poéticas – Capítulo 56

 


O Húmus do jardim

Decepção

 

Por Majda Hamad Pereira

 

Um vácuo

Estraçalha

No espaço

Deixa cacos

Desmanchando

Toda imaginação

Estarrecida e atribuída

Toda Irreverência exibida

Todos os laços espalhados.

 

Reflexão – Uma leitura possível do poema:

 

Decepção

 

O poema 'Decepção', de Majda Hamad Pereira, constitui um potente exercício de introspecção e expressão da dor. Através de uma linguagem concisa e fragmentada, a poetisa explora as nuances da desilusão, convidando o leitor a uma imersão no universo interior dilacerado pela perda da esperança. A obra, marcada por um lirismo intenso e uma carga emocional significativa, revela a habilidade da poetisa em condensar em poucos versos as complexidades da experiência humana.

 

Um vácuo

Estraçalha

No espaço

 

A primeira estrofe, com sua estrutura fragmentada e versos curtos, já antecipa o caráter dilacerante da experiência poética. A imagem do 'vácuo' que 'estraçalha' o 'espaço' interior do sujeito lírico evoca um sentimento de desolação e aniquilamento.

 

A ausência de conectivos e a justaposição violenta dos termos criam um efeito de ruptura e desordem, refletindo a perturbação psíquica do eu lírico. O 'espaço' aqui não se limita a um lugar físico, mas representa o universo interior do sujeito, agora invadido por um vazio insondável. A metáfora do 'abismo' intensifica a sensação de profundidade e de queda, sugerindo uma crise existencial.

 

Deixa cacos

Desmanchando

Toda imaginação

 

A segunda estrofe, com a imagem dos 'cacos' que 'desmancham' a 'imaginação', intensifica a sensação de fragmentação e ruína. A metáfora dos 'cacos' evoca a ideia de um objeto belo e inteiro que foi violentamente quebrado, representando a destruição de um ideal ou de um projeto de vida.

 

A 'imaginação', antes um espaço fértil e ilimitado, reduz-se a fragmentos dispersos, incapazes de recompor o todo. A presença do verbo 'desmanchando' enfatiza a irreversibilidade do processo de destruição, sugerindo um luto pela perda da esperança.

 

Estarrecida e atribuída

Toda Irreverência exibida

Todos os laços espalhados

 

A última estrofe, com a justaposição de termos como 'estarrecida' e 'atribuída', pinta um quadro de paralisia e submissão. Os verbos ('estarrecida', 'atribuída') reforçam a ideia de um estado fixo, de uma condição imposta ao sujeito.

 

A imagem dos 'laços espalhados' evoca a ruptura das conexões sociais e afetivas, intensificando a sensação de isolamento e desamparo. A presença do artigo definido ‘todo’ enfatiza a totalidade da perda, sugerindo um luto generalizado.

 

Leituras...

 

Decepção amorosa

 

Uma possível interpretação para o poema 'Decepção' é a de uma expressão da dor da decepção amorosa. A ausência de um objeto amoroso explícito e a presença de imagens de fragmentação e vazio sugerem um sofrimento decorrente de um amor não correspondido ou de uma traição. A repetição de verbos no passado e a utilização de metáforas de destruição reforçam a ideia de uma perda irreparável, característica de experiências amorosas frustradas.

 

Desilusão com a vida

 

Outra possível interpretação para o poema 'Decepção' é a de uma expressão da desilusão existencial. A linguagem fragmentada e as imagens de ruína sugerem uma crise de identidade e um sentimento de perda de sentido. A referência à 'imaginação' desmanchada pode indicar a perda de um ideal ou de um projeto de vida, enquanto o 'vácuo' representa a ausência de significado e propósito. Essa interpretação encontra respaldo na tradição literária que associa a desilusão existencial à sensação de vazio e à perda da fé na humanidade.

 

Crise existencial

 

Uma outra interpretação possível para o poema 'Decepção' é a de uma crise existencial. A imagem do 'vácuo' pode ser entendida como uma metáfora para a ausência de sentido na vida do sujeito lírico. A fragmentação da 'imaginação' e a sensação de 'estarrecimento' sugerem um profundo questionamento sobre a existência e o lugar do indivíduo no mundo. Essa interpretação encontra eco na tradição filosófica e literária que explora a temática do absurdo e da angústia existencial.

 

Por fim

 

O poema 'Decepção' de Majda Hamad Pereira constitui um poderoso exercício de introspecção, convidando o leitor a uma promissora imersão nas complexidades da experiência humana. A obra transcende a mera expressão de um sentimento pessoal, tornando-se um convite à reflexão sobre a condição humana. Ao explorar a temática da decepção, a poetisa não apenas evoca emoções profundas, mas também questiona os fundamentos da existência e a busca por significado.

 

Poeta Hiran de Melo


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