Leituras poéticas – Capítulo 52
O Húmus do jardim
Beldades
Por Majda
Hamad Pereira
Ó incrédulos, de pouca fé
Encontram-se aos montes
Produtos do meio
Sem receios que são
Malditos sejam!
Puros insanos
Que nos rodeiam
Filhos da perdição.
Reflexão – Uma leitura possível do poema:
Beldades
A concentração de
toda a força expressiva do poema 'Beldades' em uma única estrofe constitui um recurso
estilístico que intensifica a mensagem da poetisa, conferindo-lhe um caráter
direto e contundente.
Ó incrédulos, de pouca fé
A invocação direta
e acusatória 'Ó incrédulos, de pouca fé' serve como um dispositivo retórico que isola e
estigmatiza o grupo alvo da crítica da autora, estabelecendo um distanciamento
entre o 'nós' e o 'eles'. A expressão 'de pouca fé'
não apenas qualifica os 'incrédulos', mas também os desvaloriza, associando-os
a uma condição de insuficiência espiritual ou intelectual. Essa caracterização
negativa prepara o leitor para a virulência da crítica que se seguirá, ao mesmo
tempo em que reforça a identidade do grupo ao qual a poetisa os vincula.
Encontram-se aos montes
A expressão 'aos
montes' enfatiza a prolífica proliferação desses indivíduos, sugerindo uma
presença quase epidêmica em determinado ambiente. A metáfora funciona como um
recurso estilístico que amplifica a ideia de quantidade e disseminação,
sublinhando a percepção da poetisa de que esses indivíduos constituem uma
ameaça ou um problema social. Ao compará-los a uma praga, a autora não apenas
quantifica o grupo, mas também o desumaniza, reforçando a intensidade de sua
crítica.
Produtos do meio
A expressão 'produtos
do meio' evoca a noção de determinismo
social, sugerindo que esses indivíduos são moldados pelas forças sociais e
culturais que os circundam, com pouca margem para a agência individual. Essa
caracterização alude a teorias sociológicas que enfatizam o papel das
estruturas sociais na formação da subjetividade, como o materialismo histórico.
Ao serem denominados 'produtos do meio', esses indivíduos são apresentados como
seres alienados, desprovidos de uma identidade autêntica e submetidos às
imposições do ambiente.
Sem receios que são
A afirmação 'Sem
receios que são' sublinha a ausência
de qualquer sentimento de culpa ou remorso nos indivíduos em questão, revelando
uma indiferença moral diante das consequências de suas ações. Essa falta de
receios não apenas os caracteriza como moralmente reprováveis, mas também os
coloca em uma posição de superioridade em relação às normas sociais, sugerindo
uma espécie de niilismo moral.
Malditos sejam!
A imprecação 'Malditos
sejam!' revela uma intensidade de sentimento negativo que
transcende a mera reprovação, configurando-se como uma verdadeira excomunicação
simbólica. A utilização desse recurso retórico visa intensificar a crítica,
apelando para um sentimento de repulsa e condenação no leitor. Ao invocar a
figura da maldição, a autora não apenas expressa sua própria repulsa, mas
também busca mobilizar o leitor a partilhar desse sentimento, reforçando a
polarização entre o 'nós' e o 'eles'.
Puros insanos
A afirmação
enfática de 'puros' transforma a insanidade em um traço definidor e essencial
da identidade desse grupo, excluindo a possibilidade de qualquer resquício de
sanidade. O emprego do 'puros insanos' constitui um recurso estilístico que sublinha a contradição
paradoxal presente na caracterização desse grupo, revelando a complexidade da
representação da loucura na obra. Essa caracterização extrema serve para
distanciar o grupo dos demais personagens e reforçar sua posição como
antagonista.
Que nos rodeiam
A expressão 'que
nos rodeiam' denota uma proximidade física e
psicológica incômoda, sugerindo uma presença constante e invasiva desses
indivíduos no cotidiano da poetisa. Ao afirmar que esses indivíduos 'nos
rodeiam', a autora cria uma atmosfera de cerco e opressão, intensificando o
sentimento de ameaça e desagrado. Essa espacialização da crítica contribui para
a construção de um cenário hostil e opressivo, no qual a presença desses
indivíduos é percebida como uma ameaça à tranquilidade e ao bem-estar.
Filhos da perdição
A expressão 'filhos
da perdição' encerra a estrofe com uma forte
conotação religiosa, evocando imagens de pecado, culpa e condenação eterna,
típicas de discursos teológicos e morais. Ao denominar os indivíduos como
'filhos da perdição', a autora os exclui da comunidade moral, relegando-os a
uma posição de marginalidade e condenação social. Essa estratégia discursiva
não apenas reforça a polarização entre o 'bem' e o 'mal', mas também legitima a
violência simbólica exercida sobre aqueles que são considerados desviantes.
Por fim
Através do uso
estratégico de adjetivos fortes, figuras de linguagem como a metáfora e a
hipérbole, a autora de 'Beldades' constrói uma crítica social contundente,
marcada por um tom acusatório e uma linguagem carregada de conotações negativas,
visando a desqualificação do grupo alvo. A estrutura monotrópica do poema
concentra essa crítica veemente, intensificando o impacto emocional e
reforçando a ideia de uma acusação irreversível. Essa estratégia discursiva,
comum em estéticas literárias que privilegiam a expressão direta de emoções e a
denúncia social, como o expressionismo, revela a intenção da poetisa de
provocar uma reação visceral no leitor.
Poeta Hiran de Melo
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