Leituras poéticas – Capítulo 49
O Húmus do jardim
Espera
Por Majda
Hamad Pereira
Meu olho pisa o chão que arde de dor
O sangue derramado encobre a calçada
E não há ninguém que passe
Para aliviar esta dor.
A minha boca afirma
Meus olhos desmentem
A minha vida se abala
Com o frio que o meu corpo sente.
Suporto gemendo
O que não compreendo
O tempo passando
Eu aqui sentado
Morrendo na espera
Sem esperança.
Reflexão – Uma leitura possível do poema:
Espera
Através de uma
linguagem visceral e imagética, Majda Hamad Pereira, em seu poema 'Espera', traça
um retrato do sofrimento humano em sua
forma mais crua, evidenciando a
angústia, a dor e a desesperança que podem acometer um indivíduo em momentos de
profunda crise.
Meu olho
pisa o chão que arde de dor
O sangue
derramado encobre a calçada
E não há
ninguém que passe
Para aliviar esta dor.
A imagem do 'olho
pisa o chão' denota a tentativa desesperada
do sujeito lírico de encontrar alívio em um mundo dominado pela agonia. A dor,
nesse contexto, não é apenas uma sensação passageira, mas sim uma condição
existencial que permeia todos os aspectos da vida do sujeito poético.
Assim, a primeira
estrofe nos joga direto em um cenário de dor crua. O "chão
que arde" e o "sangue derramado" não são apenas imagens fortes, são um grito
de angústia. A ausência de socorro amplia a sensação de isolamento, um
sentimento que ressoa forte em nossa sociedade, onde a solidão muitas vezes se
esconde por trás das telas.
O poema usa
metáforas poderosas para expressar a dor interna. O "chão" pode ser visto como um reflexo da vida do eu
lírico, devastada pelo sofrimento. Já o "sangue" transcende a dor física, representando as
feridas emocionais que todos carregamos, as marcas invisíveis da alma.
A minha
boca afirma
Meus
olhos desmentem
A minha
vida se abala
Com o
frio que o meu corpo sente
A segunda estrofe
nos leva para o campo de batalha interna do eu lírico. Imagine a cena: a "boca" dispara frases de força, tentando manter a
pose, mas os "olhos" entregam a
verdade, denunciando a fragilidade por trás da fachada. É a clássica luta entre
o que queremos mostrar e o que realmente sentimos, um dilema que todos nós, em
algum momento, enfrentamos.
O "frio" que toma conta do corpo é mais do que uma
sensação física; é a metáfora perfeita para a perda de esperança. É como se a
vida estivesse se esvaindo, deixando apenas um vazio gelado. E essa dualidade,
essa tensão entre a palavra e o olhar, nos mostra como o sofrimento humano é
complexo e multifacetado. A gente tenta se enganar, mas o corpo sempre encontra
um jeito de revelar a verdade.
Suporto
gemendo
O que
não compreendo
O tempo
passando
Eu aqui
sentado
Morrendo
na espera
Sem
esperança
A terceira estrofe
é um mergulho no abismo do desespero. O eu lírico, preso em um ciclo de
sofrimento, "suporta gemendo o que não compreende". É como se a vida se transformasse em um
filme em câmera lenta, onde cada segundo é uma tortura. O tempo, impiedoso,
continua seu curso, enquanto o eu lírico permanece estático, "morrendo
na espera, sem esperança". A espera,
antes uma promessa, agora é um fardo insuportável, um limbo onde a esperança se
esvai.
A passagem do
tempo, contrastada com a imobilidade do eu lírico, cria uma dança macabra. É
como se o tempo estivesse zombando da sua agonia, lembrando-o da sua
impotência. A "espera" se transforma em um purgatório, onde a vida se
esvai lentamente, deixando apenas a dor e a solidão.
Leituras...
O tempo, neste
poema, emerge como uma força implacável e opressiva. Sua passagem inexoravelmente
contrasta com a imobilidade do sujeito, que, "morrendo na espera",
submete-se passivamente ao seu desenrolar. A espera, assim concebida, não é
apenas uma atitude, mas uma condição existencial que se intensifica pela
ausência de esperança. Sem um horizonte de expectativas, o sujeito encontra-se
aprisionado em um presente interminável, incapaz de encontrar forças para romper
com essa dinâmica de sofrimento.
Por fim
"Espera",
de Majda Hamad Pereira, constitui uma profunda investigação poética sobre a
condição humana, em particular sobre a experiência do sofrimento e a capacidade
de resistir à adversidade. A autora convida o leitor a uma imersão em um
universo de angústia, revelando a fragilidade da alma humana diante da dor.
Poeta Hiran de Melo
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