Leituras poéticas – Capítulo 12
Perfumes do Jardim
Nega-me
Por Majda Hamad Pereira
Nega-me
Se
tens coragem
A tu
carne
A
sede da vontade
O
teu amor
Nega-me
Se
tens coragem
A
tua verdade
A
cumplicidade
O
teu vigor
Nega-me
Se
tens coragem
Teus
braços
Abraços
Quando
não mais puder
Nega-me
Se
tens coragem
As
possibilidades
A
continuidade
Enquanto
vida tiver.
O Paradoxo
da Recusa como Revelação
Por
Hiran de Melo
A
leitura de “Nega-me” pode ser conduzida como uma travessia poética em
que o sujeito lírico se coloca diante do paradoxo da recusa e da entrega. O
imperativo repetido — “nega-me” — não é apenas um pedido, mas um desafio
existencial: negar o corpo, o desejo, a verdade, os braços, as possibilidades,
é confrontar aquilo que sustenta a própria experiência humana.
O
poema se constrói como uma espiral de intensidades. Na primeira estrofe, o
corpo e o desejo aparecem como matéria ardente, pulsão vital que não pode ser
facilmente negada. Na segunda, a verdade e a cumplicidade revelam o terreno da
intimidade, onde negar significa pôr à prova a essência do vínculo. Já os
braços e abraços, na terceira estrofe, evocam o gesto concreto do acolhimento,
que se torna ainda mais pungente diante da consciência da finitude: “Quando
não mais puder”. Por fim, a última estrofe abre-se para o horizonte da
existência, onde negar as possibilidades e a continuidade é negar o próprio
fluxo da vida.
Essa
estrutura cria uma tensão entre o desejo de ser negado e a impossibilidade
dessa negação. O eu poético parece buscar na recusa uma forma de revelação: só
quando o outro ousa negar o essencial, torna-se possível perceber a força
daquilo que não pode ser apagado. O paradoxo, portanto, é o motor da poesia —
negar é afirmar, recusar é intensificar, afastar é aproximar.
Assim, “Nega-me”
não se limita a um canto amoroso, mas se abre como meditação sobre a condição
humana. O poema pulsa na fronteira entre eros e finitude, entre entrega e
autonomia, convidando o
leitor a experimentar a radicalidade da paixão e a inevitável consciência da
brevidade da vida.
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