Leituras poéticas – Capítulo 03

Perfumes do Jardim

Respeito

Por Majda Hamad Pereira

 

Não vejo a solidão

Como tristeza

Vejo como opção

 

Não vejo erros

Como defeitos

Vejo como um conjunto

De erros e acertos

Acertos serão

 

Não vejo silêncio

Como desprezo

Vejo como respeito

Todo o silêncio

É conversa com o coração

 

Não vejo o sentimento

Como posse

Vejo como química

De sentir o outro

De puro zelo

 

Não vejo as coisas do mundo

Como insanas

Vejo como um

Aprender constante

Liberdade pulsante

Espiritualização.

 

O Olhar que transforma 

Por Hiran de Melo

O poema “Respeito” é uma meditação sobre a forma como escolhemos interpretar a vida. A repetição da expressão “Não vejo…” funciona como um gesto de ruptura: o eu lírico recusa leituras convencionais e propõe novos significados, transformando o olhar em ato de liberdade.

Solidão como escolha

Logo na abertura, a solidão deixa de ser sinônimo de tristeza e passa a ser opção. Essa inversão revela uma postura de autonomia, onde estar só não é vazio, mas espaço de encontro consigo mesmo. É uma afirmação de independência emocional, quase um manifesto de liberdade interior.

Erros e acertos como unidade

Ao declarar que não vê erros como defeitos, mas como parte de um conjunto, o poema nos convida a enxergar a vida como processo. Erros e acertos se entrelaçam, e a frase “Acertos serão” carrega uma esperança ativa: o futuro é sempre possibilidade de transformação. A imperfeição, longe de ser falha, é caminho de aprendizado.

Silêncio como respeito

 O silêncio, tantas vezes confundido com desprezo, é ressignificado como diálogo íntimo. “Todo o silêncio é conversa com o coração” — aqui, o silêncio é presença, escuta, cuidado. É uma linguagem invisível que conecta, uma forma de respeito que transcende as palavras.

Sentimento como química

 Ao rejeitar a ideia de sentimento como posse, o poema propõe uma visão fluida e alquímica das relações. O sentir é química, reação espontânea que exige zelo. Amar, nesse contexto, não é dominar, mas reconhecer e cuidar da singularidade do outro.

O mundo como aprendizado

Na estrofe final, o olhar se abre para o cosmos: o mundo não é insano, mas campo de aprendizado constante. A “liberdade pulsante” e a “espiritualização” apontam para uma dimensão maior, onde viver é crescer, e crescer é se abrir ao mistério.

Em síntese, “Respeito” é um convite a trocar lentes: a ver a solidão como escolha, o erro como caminho, o silêncio como cuidado, o sentimento como química e o mundo como escola. É uma poesia que nos ensina a reinterpretar a vida com mais leveza, profundidade e abertura espiritual.

Se pensarmos em nossa própria experiência, qual desses “não vejo” você sente que mais transforma sua forma de estar no mundo?


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